Biografia de Flora Bocci
.Conheça mais sobre Flora Bocci, a memorialista que guardava em São Paulo a história de Avaré. Defensora de bens culturais, ela preservou rico acervo em sua casa antes de cedê-lo ao patrimônio municipal
A história de Flora Bocci
Embora resida há seis décadas na capital paulista, a avareense Flora Martins Barbosa Bocci nunca se desligou da terra natal. Cidadã benemérita, a educadora carrega Avaré para onde vai.
Sua residência, no Sumarezinho, é como uma embaixada municipal na megalópole, onde calorosamente recepciona os conterrâneos em encontros culturais por ela organizados.
Nascida em 16 de janeiro de 1938, a primogênita dos ferroviários Desidério Dias Barbosa e Guaraciaba Martins Barbosa perdeu os pais ainda menina, sendo então acolhida pela avó materna, de quem recebeu formação religiosa metodista. Alfabetizada no Grupo Escolar Maneco Dionísio, Flora estudou no Instituto de Educação Cel. João Cruz, onde foi aplicada normalista e optou por abraçar com devoção o magistério.
Aos 22 anos, a jovem professora com coragem partiu para São Paulo em busca de melhores opções. Poucos meses depois, em setembro de 1960, quando já lecionava, surpresa, Flora lá conheceu o experiente advogado Paschoal Bocci, seu conterrâneo de ascendência italiana, ainda solteiro e que já contava com o dobro de sua idade.
Essa circunstância nem era barreira e assim brotou uma bela história de amor, como ela própria bem definiu, “edificada sobre uma dedicação comum: Avaré, chão dos nossos passos”.
Um átimo transcorreu entre namoro e casamento. Fascinada pelo entusiasmado idealismo de Paschoal, que mantinha consigo relíquias históricas, ela o desposou em setembro de 1962, logo deixando-se contagiar pela mesma paixão: o cuidado com a memória do povo avareense. Enquanto dava aulas e ele cuidava de processos jurídicos, chegaram Amaury, Celso, Denise e Cláudia, os quatro herdeiros, todos educados entre coleções de jornais raros de Avaré e de álbuns fotográficos guardados pela família na sala e no escritório.
Por quinze anos o casal teceu planos e Paschoal já estava a plantar antigas lembranças no chão de sua sensibilidade para registrá-las em livro. Porém, nas vésperas do Natal de 1977 seu coração parou de pulsar durante uma missa. Naturalmente Flora e os filhos sentiram a amarga perda da pessoa carinhosa que lhes testemunhara ter amado sua terra natal como poucos.
Viúva, a professora prosseguiu serena e, mesmo com muita saudade, abraçou o ideal de pesquisar e de registrar a história avareense em livros, conforme era o desejo do inesquecível marido. Ideal que Flora honrou de maneira plena.
Inspirada no marido, pesquisadora organizou três coletâneas históricas. Apoiada pelos filhos, em setembro de 1983, Flora Bocci concretizou o sonho de Paschoal Bocci ao publicar “Subsídios para a história de Avaré“, volume de 470 páginas, por ela organizado com reproduções de notas jornalísticas entre os anos de 1880 e 1930. A obra mereceu na época elogios do arcebispo de Botucatu. “Numa simples pincelada de mestra, a autora descreveu a missão educadora da história, a sua força reconstrutora de valores reais e a sua função de defensora de valiosos patrimônios culturais”, destacou dom Vicente Zioni, também historiador.
Em setembro de 2001, ela lançou “História de Avaré”, o segundo volume com 480 páginas, no qual selecionou reportagens das décadas de 1940 a 1990. Os dois livros são dedicados à memória do esposo. “Paschoal, ser elevado, pacientemente colecionou jornais e hoje, nesses feixes de informações, fica a nossa contribuição aos estudiosos da história e aos amantes de Avaré”, ressaltou Flora.
“Uma divertida máquina do tempo em Avaré” é o título do terceiro volume da série organizada pela pesquisadora e editada em julho de 2008. Estão contidas em 304 páginas, segundo ela definiu, “as preciosidades garimpadas em jornais publicados na cidade de Avaré, outrora Rio Novo, entre 1892 e 1961, ano de seu centenário”.
Em 2012, Flora Bocci transferiu ao arquivo do Museu Municipal o acervo que ela e Paschoal conservaram por mais de meio século sob sua guarda, o qual tem raridades como fragmentos de jornais impressos em Avaré nos anos 1880.
Educadora assessorou Jânio Quadros e Mário Covas
Mulher empenhada, após lecionar por vinte anos na rede de ensino, a professora Flora Bocci recebeu convite e aceitou trabalhar no gabinete do prefeito de São Paulo, cujo titular em 1982 era o seu conterrâneo Antônio Salim Curiati, que já representava Avaré na Assembleia Legislativa. Em virtude de sua eficiência, ela permaneceu na função até aposentar-se do serviço público.
Nesse meio tempo a avareense assessorou celebridades da recente história política do país, tendo convivido de perto com o engenheiro Mário Covas (1930-2001), depois senador e governador do Estado, e com o professor e advogado Jânio Quadros (1917-1992), ex-presidente da República. Ambos haviam respondido pela prefeitura paulistana e deles a assessora se tornou amiga e admiradora.
Em 1991, a memorialista fundou a Associação Amigos de Avaré “Paschoal Bocci”, da qual é a presidente honorária. Essa entidade tem sede em sua residência e reúne dezenas de avareenses que moram na capital.
Graças à tecnologia, hoje, aos 83 anos, avó de quatro netos, Flora se mantém ativa e cuidadosa, em meio à pandemia, compartilhando seus conhecimentos e suas reminiscências da Avaré de todos os tempos, através das redes sociais.
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Publicado no jornal ‘A Comarca’, por Gesiel Júnior
edição 1366, de 12 de março de 2021✒️
